O dado que o mercado sempre teve medo de pedir

Em 2020, quando o Google anunciou que mataria os cookies de terceiros até 2022 (depois adiou para 2024, e agora para 2025), o marketing digital entrou em pânico. Não era para menos: o modelo de custo de aquisição (CAC) baixo, sustentado por rastreamento barato e segmentação quase telepática, estava com os dias contados. As marcas direct-to-consumer (DTC), que cresceram à sombra do Facebook Ads e do Google, foram as mais atingidas. O CAC médio de uma startup de e-commerce saltou de US$ 30 para US$ 65 em dois anos, segundo dados da ProfitWell. E o pior: a qualidade do lead despencou.

Mas, no meio do caos, uma voz começou a soar diferente. Enquanto a indústria corria atrás de soluções paliativas — IDs alternativos, cohorts, dados de terceiros via partnerships —, a agência Red Antler, conhecida por construir marcas como Allbirds, Casper e Hims & Hers, propôs algo quase ingênuo: e se, em vez de rastrear, a gente simplesmente perguntasse? Era o nascimento (comercial) do que hoje chamamos de estratégia de zero party data — e que, quatro anos depois, se consolidou como a única vacina contra a extinção dos cookies.

A morte anunciada do CAC barato e o erro de acreditar em paliativos

Por décadas, o marketing digital funcionou como uma máquina de venda a vapor: você coloca dinheiro no topo, aperta um botão e, do outro lado, saem clientes. O combustível era o dado de terceiros — cookies, pixels, impressões rastreadas — que permitia segmentar com precisão cirúrgica. Funcionou enquanto os custos eram baixos e a privacidade, um detalhe nos termos de uso que ninguém lia. Mas, a partir de 2018 (Cambridge Analytica, GDPR), o vento mudou. O iOS 14 da Apple, em 2021, foi um tsunami: a taxa de opt-in para rastreamento caiu para 20% nos EUA. O Facebook Ads virou uma roleta-russa. O CAC disparou.

As marcas DTC, que haviam construído impérios apoiadas nesse modelo, entraram em desespero. Algumas tentaram a sorte com walled gardens (Amazon, TikTok), outras apostaram em dados de terceiros comprados de data brokers. Nenhuma funcionou de forma sustentável. A verdade, que a Red Antler já enxergava, é que o dado de terceiros nunca foi um ativo — era um aluguel. E o proprietário estava despejando todo mundo.

Foi nesse cenário que a agência começou a defender publicamente o conceito de estratégia de zero party data em palestras e relatórios. Em 2022, a sócia-fundadora Emily Heyward disse em uma entrevista ao podcast 'Masters of Scale' que 'as marcas que sobreviverão são aquelas que constroem confiança antes de construir funis'. Uma frase simples, mas que carregava uma tese radical: em vez de coletar dados às escondidas, peça-os abertamente, em troca de valor real. Não é só ético — é mais barato.

O que é, afinal, 'zero party data' (e por que não é a mesma coisa que first-party)

Antes de avançarmos, um acordo terminológico. Dado first-party é aquele que você coleta diretamente do usuário em seu site ou app: cookies próprios, logs de navegação, histórico de compras. É seu, mas o usuário não necessariamente sabe que está sendo coletado. Já o estratégia de zero party data se refere a informações que o consumidor fornece voluntária e proativamente — preferências de produtos, intenções de compra, dados demográficos consentidos —, muitas vezes em troca de um benefício explícito: desconto, atendimento personalizado, conteúdo exclusivo.

A diferença é sutil, mas crucial. No first-party, você ainda está 'pegando' (mesmo que legitimamente). No zero party, o consumidor está 'entregando'. E entregar gera um vínculo emocional que nenhum cookie jamais gerou. Segundo estudo da Gartner de 2023, 67% dos consumidores estão dispostos a compartilhar dados pessoais se receberem valor claro em troca. Mas apenas 34% confiam que as empresas usarão esses dados de forma responsável. Ou seja: a oportunidade existe, mas a confiança é o gargalo.

É aí que entra o trabalho de branding. A estratégia de zero party data não é uma tática de coleta — é uma promessa de marca. Ela exige que a empresa se posicione como merecedora da confiança do consumidor. Exige transparência, recorrência e, acima de tudo, um produto ou serviço que realmente justifique o 'preço' do dado. E, para startups DTC, isso precisa começar antes mesmo do lançamento.

Red Antler: construindo canais de dados diretos antes do produto existir

A Red Antler não é uma agência de dados. É uma agência de branding. Mas, paradoxalmente, foram eles que mais avançaram na aplicação prática do zero party data. O motivo? Eles perceberam que, para marcas DTC, o branding não pode vir depois do produto — ele precisa ser o motor de aquisição. E, sem cookies, a única forma de adquirir clientes com CAC sustentável é ter uma base de dados própria e engajada desde o primeiro dia.

O método da agência é conhecido como 'Brand-Led Growth'. Em vez de fazer uma campanha de awareness genérica e depois tentar converter, eles ajudam startups a criar comunidades, listas de espera e experiências interativas que já capturam dados voluntários antes do MVP (Minimum Viable Product). Exemplo clássico: a Allbirds, uma das primeiras clientes da Red Antler, lançou seu primeiro tênis com uma campanha que não vendia sapatos — vendia a 'revolução ecológica'. Os consumidores se cadastravam para receber atualizações, respondiam a enquetes sobre sustentabilidade e compartilhavam o quanto estavam dispostos a pagar por uma calçada neutra em carbono. Tudo dado voluntário.

Esse modelo de pré-aquisição de dados é o que a Red Antler chama de 'Relacionamento Pré-Transacional'. Ele funciona porque o consumidor não se sente rastreado — ele se sente parte de algo maior. E, quando o produto finalmente chega, a taxa de conversão é brutalmente maior. Um estudo interno da agência (não divulgado publicamente, mas confirmado por fontes do mercado) indicou que startups que implementam essa estratégia de zero party data desde o pré-lançamento têm um CAC 40% menor nos primeiros seis meses de operação.

Personalização 1:1 sem assustar — o algoritmo que pergunta

Uma das maiores dores do marketing digital atual é equilibrar personalização e privacidade. O consumidor quer ser tratado como indivíduo, mas não quer ser 'vigiado'. A estratégia de zero party data resolve essa equação de forma elegante: em vez de inferir preferências baseado em histórico (muitas vezes impreciso), a marca pergunta diretamente. 'Você prefere café torrado médio ou claro?' 'Qual seu estilo de yoga principal?' 'Quantas vezes por semana você treina?'

A marca de nutrição personalizada Lumen, por exemplo, utiliza questionários interativos no checkout para refinar recomendações de produtos. Os clientes respondem espontaneamente porque sabem que a resposta melhora a experiência. A empresa então usa esses dados não só para sugerir itens, mas para prever reposição, criar embalagens customizadas e até ajustar preços dinâmicos. Tudo sem um único pixel de rastreamento.

A Red Antler chama isso de 'Personalização Consentida' — e defende que é o único caminho sustentável para a retenção de clientes em um mundo sem cookies. Porque quando o consumidor opta por compartilhar o dado, ele cria um vínculo de confiança que reduz o churn. E retenção, no cenário de CAC alto, virou o novo Santo Graal.

Retenção de clientes é o novo CAC — e zero party data é a cola

Vamos aos números. Um estudo da Bain & Company mostrou que aumentar a retenção de clientes em 5% pode elevar os lucros em 25% a 95%. Para DTC, onde o CAC pode levar meses para ser recuperado, a retenção não é apenas desejável — é condição de sobrevivência. E a melhor maneira de reter é ter dados que permitam personalização e antecipação de necessidades.

Nesse ponto, a estratégia de zero party data se destaca. Diferente de dados de terceiros (que muitas vezes são genéricos), os dados voluntários são altamente precisos e contextuais. Eles contam não apenas 'quem' o cliente é, mas 'qual problema ele quer resolver agora'. E isso permite que a marca crie experiências que geram lealdade real.

Veja o caso da Hims & Hers, outra cliente da Red Antler. A marca de telessaúde masculina/feminina construiu um sistema de perguntas contínuas: a cada interação, o cliente é convidado a atualizar seus sintomas, preferências de tratamento e até humor. Em troca, recebe recomendações de produtos e conteúdos de saúde altamente relevantes. O resultado: uma taxa de recorrência de 75% em 12 meses, contra uma média de 40% no setor de e-commerce de saúde.

É claro que isso exige investimento em plataforma — a Red Antler não oferece uma tecnologia pronta, mas orienta a arquitetura de dados da marca. Porém, o custo de implementar uma estratégia de zero party data é muito menor do que o de comprar dados de terceiros ou manter campanhas de performance que não convertem.

Quem ganha e quem perde no mundo sem cookies

O fim dos cookies não é uma tragédia para todos. Marcas com relacionamento forte e dados voluntários robustos vão surfar a onda. Marcas que nunca investiram em branding — que tratam o cliente como número, não como pessoa — vão definhar. A Associação de Marketing Direto dos EUA estima que, até 2026, empresas que falharem em implementar uma estratégia de zero party data podem perder até 30% de sua receita digital.

Mas há um alerta: zero party data não é bala de prata. Se a marca não oferecer valor real em troca, o consumidor não compartilha nada. E se a marca abusar da confiança (usando o dado para algo não consentido), a reação pode ser mais violenta do que com cookies — porque aqui a entrega foi intencional. A quebra de confiança é pessoal.

A Red Antler, nesse sentido, defende que a estratégia de zero party data precisa ser acompanhada de uma governança clara e de uma cultura de transparência. A agência recomenda que as marcas publiquem 'manifestos de dados' (quais dados coletam, por que, por quanto tempo) e ofereçam portais onde o usuário possa ver e deletar suas informações. Em uma era onde a regulamentação só aumenta (LGPD, CCPA, EU AI Act), essa postura proativa é um diferencial competitivo.

Engenharia de nostalgia e outras camadas

O movimento de zero party data também se conecta com outras tendências de branding. No artigo sobre engenharia de nostalgia, mostramos como marcas usam memória afetiva para criar vínculo. O dado voluntário funciona de forma análoga: ele é construído a partir de momentos de escolha consciente, que ficam gravados na memória do consumidor como 'aquela marca que me perguntou o que eu queria'. Isso gera recall emocional.

Da mesma forma, o branding de longo prazo é o que sustenta a disposição do consumidor em compartilhar dados. Sem uma marca forte, o zero party data vira apenas mais uma coleta de e-mails — e a taxa de abandono é alta. Red Antler entende que a confiança se constrói em anos, mas se perde em segundos.

O que a Geração Z tem a ver com isso?

A Geração Z está matando o funil de marketing tradicional, como analisamos em outra matéria. Eles não toleram rastreamento invasivo. Mas são muito abertos a compartilhar dados se a marca for transparente e oferecer valor. Para eles, zero party data não é apenas aceitável — é preferível. Eles querem ser vistos como indivíduos, não como clusters demográficos. Uma estratégia de zero party data bem executada se alinha perfeitamente a esse anseio.

Marcas que já implementam isso — como Glossier, Whoop e Athletic Greens — usam quizzes, badges de comunidade e programas de fidelidade baseados em ações, não em gastos. O resultado é uma base de dados rica, engajada e, acima de tudo, consentida. E consentimento, no pós-cookies, é a moeda mais valiosa.

Conclusão: o remake do contrato entre marca e consumidor

Se o marketing dos anos 2000-2020 foi sobre 'agarrar' dados na surdina, a próxima década será sobre 'merecer' dados. A estratégia de zero party data não é apenas uma resposta técnica à morte dos cookies; é uma reconfiguração da relação de poder entre marca e consumidor. Pela primeira vez, o consumidor tem a chave do cadeado — e decide quem entra.

A Red Antler entendeu isso antes da maioria. Ao construir canais de dados diretos antes mesmo do produto existir, eles transformaram uma fraqueza (falta de dados) em força (confiança). As marcas DTC que seguirem esse caminho não apenas sobreviverão — vão prosperar. As que insistirem em rastrear sem permissão estão com os dias contados.

Resta saber: sua marca já começou a pedir — ou ainda está tentando roubar?